"Voltei da NRF e descobri que minha marca tinha que comprar um terreno no metaverso"

Artigos / Branding - 28.01.2026 - 11:00

"Voltei da NRF e descobri que minha marca tinha que comprar um terreno no metaverso"

Há eventos ao redor do planeta vendendo o futuro em embalagens premium de palestras e workshops. E antes que pensem o contrário, não sou contra summits — longe disso. Eles são fóruns legítimos para reunir profissionais e trocar ideias. O problema começa quando confundimos troca com profecia. Nossa capacidade de prever o futuro é pífia. E entender o presente, sem o devido distanciamento, não é muito melhor. O livro Superprevisões, de Philip Tetlock e Dan Gardner, já deixou isso bem claro. Ainda assim, insistimos. O ecossistema de negócios virou uma caixa de ressonância gigante para as fragilidades humanas disfarçadas de tendências.

O futuro são flashmobs, marcas amadas e NFTs

Nada como revisitar o passado para rir do futuro. Alguns anos atrás, a NRF em Nova York decretava: “o fim da loja física chegou”. Cannes nos convenceu de que “o propósito é tudo”. Já ouvimos sobre lovemarks, NFTs, flashmobs — todos apresentados como os novos pilares do branding moderno. Neste exato momento, em algum palco iluminado, mais uma tendência essencial (sem a qual sua marca supostamente morrerá) está sendo proferida por algum especialista, para uma plateia simultaneamente assustada e eufórica com o que vem pela frente.

Porque o diferente vence o óbvio

O ser humano é adaptável — talvez o maior motivo de termos chegado até aqui. Tudo que parece novo hoje vira rotina amanhã. E é aí que mora o paradoxo: aquilo que funciona e tem histórico comprovado acaba escanteado. Já o que é novo — ou pelo menos parece — vira o centro do palco. Porque o óbvio não enche auditório. O que atrai é o que promete mudança, disrupção e, de preferência, algo que você ainda não entendeu (ou nem ouviu falar).

Como montar um evento que seduz o público

A fórmula é quase infalível: fale de amor às marcas (ainda que a prática mostre o contrário). Questione os 4Ps (mesmo que eles sigam firmes e funcionais). Reforce virtudes — ninguém quer parecer insensível, então ESG e propósito são palavras obrigatórias em qualquer painel. Traga pesquisas — daquelas que juram que consumidores só compram marcas alinhadas aos seus valores, ainda que os dados reais desmintam isso todo trimestre. E claro, fale de influenciadores. Mesmo que, no final das contas, a única marca construída seja a deles mesmos — não a que os contratou.

Participe, mas vá com senso crítico

Eventos de branding, marketing e gestão são importantes. Eles mostram o mundo lá fora. Mas não todo o mundo lá fora, como provoca o cartoon de Tom Fishburne. Todo gestor precisa sair da bolha — e isso vai além do crachá de visitante premium. Vá também para a “rua”: onde estão seus clientes reais, onde moram os problemas concretos, onde os ex-clientes se refugiaram. Entre nas lojas que você perdeu. Converse com quem te esqueceu. E sim, continue indo aos eventos. Mas vá com os ouvidos atentos, olhos críticos e mente ativa. Porque senão, no fim do dia, você sai de lá com um certificado... e uma escritura no metaverso.

Saul
Felipe Schmitt-Fleischer
Estrategista de marcas

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